sábado, 17 de junho de 2017

XOTE DOS POETAS


Sonhei com Pablo Neruda;
Em plena Praia do Futuro;
Escrevendo num imenso muro;
La palabra Libertad;
Com poemas de Vinicius;
En las manos eram hermanos;
Recitava Éluard...

E gente em plena tarde;
Poetas de todo mundo;
Escrevendo por toda parte;
La palabra Libertad...

Voava com castro Alves;
Gregório também Gonçalves;
Dias e noites latinas;
Cabral dançando um frevo...

E um cego de improviso;
No imenso salão da claridade;
Relampejou num sorriso;
La palabra Libertad...

Toda a familia Andrade;
Zé Limeira, Ferreira e eu;
Pessoa e Garcia Lorca;
Queimando o pau de uma forca;
Hasteando Manuel Bandeira;
La palavra Libertad...

Maracatu de Dona Santa;
Batutas de são José;
Patativa do Assaré;
E também Dodô e Osmar...

Vi Dirceu atrás da grade:
Abre Marília, sou eu!
Sonhando num céu de fogo;
Libertas quae sera tamen...

E um cheiro de tangerina;
Descascava Jorge de Lima;
As invenções de Orfeu;
Rezava Murilo Mendes...

Gritava o povo no vale;
Num muro grande concreto;
Gás neon sobre o deserto;
A inscrição: liber tarde...
 
Gritava o pé de chinelo;
Esquentava o boia-fria;
Soletrava um pau-de-arara;
Entre as coxas de Maria...

E um prato de feijão;
Decifrava o analfabeto;
A escrita de Malarmé;
Em pleno golpe da sorte;
A morte fugiu pra marte;
A vida disse: aqui jazz;
Swing por toda parte...

Xote, xaxado e baião;
O repentista azulão;
Anunciou no sertão;
A palavra liberdade...

Una canción desesperada;
Dos chilenas amaban;
Se fueron con tres doncellas;
Cuatro muchachas morenas...

A las cinco en punto de la tarde;
Las seis grandes bascas;
En siete estrellas tornaron;
Ocho novias brasileñas;
Nueve puñales, diez verandas;
Sangre nel mural de la tarde;
La palabra Libertad;
La palavra Libertad...


ZÉ RAMALHO

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